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Pensamento Contemporâneo

Pensamento Contemporâneo

A esquerda e a eleição em Porto Alegre

 

Por Jorge Barcellos, Doutor em Educação 

 

As vésperas das eleições, a avaliação positiva das candidaturas de esquerda pelas pesquisas de opinião coloca a questão: porque não houve polarização? A cidade já teve grandes ciclos de racha político: PTB versus anti-PTB nos anos 50 e PT versus anti PT nos anos 90. Agora, com dois partidos de esquerda na liderança, PSOL e PT, o que mudou?

 

Minha explicação é que três fatores explicam a mudança. O primeiro foi a incapacidade da direita em sustentar no imaginário politico da cidade o “antipetismo”. Isso aconteceu por uma série de razões com a ascensão da politica neoliberal do governo Michel Temer, a crise do governo de José Ivo Sartori, ambos mostrando que o projeto do PMDB na prática, é bem distante das propostas no período eleitoral: quando no poder, o PMDB se revela como uma máquina de massacar direitos.

 

A vantagem de saída não é garantia de chegada e há muito caminho a ser trilhado para a esquerda. Ela terá de enfrentar, para começo de conversa, sua incapacidade de perceber a necessidade de abdicar das candidaturas próprias em benefício de uma união de esquerdas, preferindo PSOL e PT, cada uma, “tentar a sorte” em caminhada própria. Sebastião Melo dispara, com suas alianças, no tempo disponível no horário eletorial e ainda que o próprio debate possa mudar em parte esse contexto, a tendência é que a diferença entre o candidato de situação e o da oposição diminua ao longo do horário eleitoral. 

 

A verdade é que as oposições ao atual governo municipal estavam mais voltadas para sí próprias desde o inicio do processo eleitoral e pagam um preço por isso: para o PT, tratava-se de uma bandeira de honra mudar o sentido da curva descendente dos anos 2000; para o PCdoB, tratava-se de uma questão de honra transferir o capital político de sua principal estrela, Manuela, derrotada nas eleições de 2008. O segundo é o fracasso da mudança ocorrida no discurso de Fogaça (2008) para Fortunati (2012): saiu o discurso da defesa da “cidade como um todo” (NOLL,DIAS & KRAUSE, 2012) e entrou o discurso do “Eu amo Porto Alegre” e o que restou? Uma cidade em pedaços. Para mim este discurso é ideologia em estado puro.

 Porquê? Claro que todos gostamos da cidade, etc e tal, mas o que é era amor dito dequela forma? Era, na concepção de Slavoj Zizek, um ato simbólico violento: ele não dizia “Eu amo TODOS vocês” mas selecionava a partir um ponto de vista que dizia “Eu amo você ACIMA de qualquer coisa”, o que é profundamente ideológico, já que do ponto de vista da esquerda, é a negação do ideal de solidariedade mundial, da defesa da luta conjunta com os povos excluídos, como as populações marginalizadas no Terceiro Mundo, etc, etc. Era ideológico porque nos diz; nós não nos preocupamos, não existe nada ALÉM de Porto Alegre. É isso? Claro que não! As transformações do contexto nacional e estadual importam, e este deve ser o mote das candidaturas de esquerda, mostrar que o discurso de Fortunati estava errado desde o principio. Sinto dizer aos apaixonados pela capital como eu que não! A esquerda, por sua vez, frente a um discurso tão frágil mas ideologicamente tão poderoso, perdeu porque foi incapaz de criar um contra-discurso original: qual foi a aposta de Manuela se não copiar o primeiro discurso de Fogaça “fica o que está bom, muda o que não está” que na sua versão se transformou em “ muda isso, continua isso?”Qual foi a aposta de Villa se não um “é preciso crer!”? Nada mais frágil!Por isso construir um discurso que vincule a cidadania é prioridade para esquerda para não repetir os erros da eleição passada.

 

O terceiro é a adoção de uma estratégia de esquerda por um governo de esquerda, isto é, não fazer concessões. È a estrategia do PSOL, que não abriu mão da cabeça de chapa e vice.  A esquerda cedeu a sedução do centro desde que Hobsbawn viu que na luta politica inglesa dos anos 70 que o neoliberalismo estava vencendo porque sequer o Partido Trabalhista inglês estava conseguindo sair de sua estagnação. Ele previu que somente transformando-o em um amplo partido popular se teria alguma chance de combater o thatcherismo. Ele então propôs as quatro metas para o Partido Trabalhista à epoca: convencer as pessoas de que elas queriam o que o Partido representava; mostrar que a política do Partido Trabalhista não era apenas desejável, mas realista; que o Partido Trabalhista representava efetivamente todos os trabalhadores e que o trabalhismo tinha esperança na Inglaterra.

 

 

Em Porto Alegre, na ultima eleição, o PDT adiantou-se a esquerda e adotou exatamente esta estratégia, a mesma que Hobsbawn queria para a esquerda e teve sucesso e chegou ao poder. Por isso, para a esquerda hoje, em Porto Alegre, às vésperas da eleição, só resta como saída a última estratégia sugerida por Hobsbawn, anos depois, em 1987: vendo que a posição do Partido estava melhorando, mas não o suficiente, disse que a única opção era “votar no candidato que estiver mais bem colocado para afastar o candidato conservador.” Hoje, a esquerda disputando entre sí o eleitor não é a melhor opção da esquerda – vide a tentativa vergonhosa e inutil de Manuela na eleição passada de aproximação ao PP, que faria Marx, Lenin e Trostsky & Cia revirarem-se no túmulo várias e várias vezes só de ódio. Mas, talvez, frente as próximas pesquisas, a única chance de combater o continuísmo na Prefeitura será o abandono de um dos candidatos de esquerda a disputa, com a transferência de seus votos para o que estiver melhor colocado.