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Pensamento Contemporâneo

Pensamento Contemporâneo

Cinco anos do Massacre do Realengo

 

Surpreende a facilidade com que esquecemos as tragédias. Uma delas, provocada por Wellington Menezes de Oliveira, 24 anos, que no dia 7 de abril de 2011, uma quarta-feira, entrou armado na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro e atirou contra uma dezena de crianças foi um ato revoltante pela violência contra inocentes. Completou cinco anos e ninguém se lembrou. Mas ele deve inspirar reflexões sobre questões urgentes no campo das políticas públicas.A chacina ocorreu por volta das 8h30min da manhã e seu ato violento matou cerca de doze estudantes com idade entre 13 e 16 anos, e deixando mais de treze feridos. Oliveira foi interceptado por policiais, cometendo suicídio.

Cinco anos depois, ninguém mais lembra o episódio, mas ele ainda tem lições a nos ensinar. Em primeiro lugar, o ato revela a fragilidade das instituições escolares. Discussões sobre segurança nas escolas e adoção de uniforme escolar, recentemente debatidos pela imprensa, são necessidades urgentes a serem implementadas. Oliveira entrou armado numa escola pública onde o Estado é o responsável pela segurança. Como isso foi possível? Em segundo lugar, a fragilidade dos jovens que formamos. Educadores lutam há anos pela qualidade do ensino e pelo fortalecimento da formação dos jovens. Este é o papel da escola. Oliveira, ex-aluno, de alguma forma ainda não esclarecida, nutriu tamanho ódio pela escola que resultou em sua trágica ação. Saber que a instituição que cria o amor ao conhecimento termina por construir o seu exato oposto é pertubador.

Os educadores há algum tempo vem refletindo sobre a escalada aos extremos da violência na escola, produto dos tempos de perda de referências em que vivemos. Mas este crime acrescenta algo novo e para o qual a escola não está preparada: o êxtase da violência em estado puro. É bem verdade que o Estado, sempre acusado pelas suas deficiências, mostrou serviço: viu-se a corrida para o atendimento das vitimas e suas famílias. As primeiras cenas mostraram bombeiros, médicos e policiais integrados buscando cumprir seu papel, daí a necessidade de fortalecer as instituições públicas que dão assistência nestes momentos de dor. Este crime bárbaro deve servir a sociedade como a sombra de um fantasma. È algo simbólico no sentido mais forte.

Podemos deplorar a ação do assassino, mas se ficarmos só nisso então acabou. O problema é saber o que gera o ato violento de Oliveira, feito em parte, da situação de violência cotidiana que todos vivemos e que precisamos combater. É preciso fazer a genealogia desta violência, porque à violência brasileira das ruas vem anunciar-se esta sombra, a da violência contra escolas. Num país onde há conforto absoluto para uns, sabe-se que a produção da exclusão leva a loucura, recusa e negação que pode estar entre as causas que levaram Oliveira a realizar um ato perverso. Mas que perversões ainda maiores estão por vir do seio de nossa sociedade a partir do momento em que abandonamos a defesa dos valores universais? Para Paul Virilio, vivemos uma guerra planetária que ainda compreendemos pouco, mas que é caracterizada por um tipo de desintegração interna, efeito do poder que se exerce sobre a sociedade mas que também a extermina. Esse é o perigo real encarnado na tragédia carioca que precisamos urgentemente compreender após cinco anos.